Foi apenas um acidente

O parasita que habita a mente, no vencedor da Palma de Ouro em Cannes

Erika Amaral

1/16/20263 min ler

No cinema, o estresse pós-traumático normalmente acompanha os perpetradores de violência como penduricalhos de guerra. Quase como uma norma dos filmes de “veteranos”, o suposto heroísmo de voltar da batalha não vem sem o custo alto do horror infiltrado na mente, revivendo disparos, explosões e morte.

Foi apenas um acidente desloca esse padrão para outro rumo, olhando para as manifestações civis e sociais no contexto iraniano e como o sistema lida com elas. O discurso no presente traz a memória do passado, criando imagens aterradoras, como as torturas, presos vendados, enforcamentos, e a perda total da autonomia e privacidade do próprio corpo nas mãos dos torturadores.

São pessoas sobreviventes desses episódios, como Vahid, que tentam recriar a vida normal que tinham antes, mas são surpreendidas pelo “retornado”: o Perna de Pau, o torturador cujos passos que rangiam ficaram marcados na mais fina fibra da memória de cada um dos presos que cruzaram seu caminho.

Essa é a potência do estresse pós-traumático. O mais discreto som evoca os acontecimentos que geraram traumas. O que fazer, então, com esse parasita que habita a memória?

A árvore seca que serviria de lápide para Perna de Pau, tivesse Vahid o enterrado vivo nos primeiros minutos de filme, abre-se em dois galhos, ou ainda, dois caminhos possíveis: matar ou permitir viver. Os dois não se conversam entre si. É preciso escolher a violência ou a passividade.

E é um certo desejo de vingança com uma culpa mal-resolvida pela continuação da violência que motiva a trama. Estão sempre buscando a certeza de que aquele homem é, de fato, Perna de Pau. E depois, se confirmada a identidade ou não, o que fazer com ele?

Mas há pistas muito evidentes que resolvem esse mistério – uma delas é o atropelamento de um cachorro. Extremamente sutil, nos faz ver como é a reação de um homem impassível, frio diante da morte, que apenas remove o corpo do animal e limpa suas mãos, endurecido pela prática.

Panahi tem um tempo precioso e fala sobre o filme com a sobriedade de quem vive, na pele, a sensação do que é ser continuamente mirado, perseguido, intimado e preso pelo regime que critica.

Até nos momentos cômicos, há algo importante a se pensar sobre o filme, como na cena em que todas as personagens saem do carro para empurrá-lo, na via pública, o mesmo carro que tem dentro um homem sequestrado e guardado em um caixão a la Dr. Caligari. Uma ou duas pessoas veem e se juntam para ajudar a empurrar. Há aqui uma discreta mensagem sobre coletividade e apoio mútuo. Talvez, ajudar a empurrar um carro enguiçado bloqueando o trânsito seja o mais perto que estamos hoje de uma multidão trabalhando pelo benefício de todos.

A sequência final pode, e deve, gerar debate e dúvida. Alguns se perguntam, na saída do filme, se o torturador de fato retornou. Se retornou, como chegou até ali? O que ele faria com Vahid? Ele simplesmente vira de costas e vai embora? Ou se vinga e completa a sua vingança contra os sobreviventes?

Mas em verdade, vale mais questionar: em algum momento ele partiu? Na leitura da dor causada pelo trauma, Vahid apenas revive o som inescapável dos passos. Manifestação de uma mente e corpo profundamente feridos que recriam sons que não existem naquele momento, mas existiram em outro. Que trazem com realismo assustador a inesperada visita do medo. Que criam uma prisão imposta a si mesmo.

Aqui, os passos que rangem nunca irão embora. Bem acocorados nas estruturas neurais, ficarão lá para sempre, retornando com mais ou menos força, mas prontos para extravasar e contaminar um pouco mais a vida cotidiana. Como uma cova rasa que permite escapar os sucos do passado.

Foi apenas um acidente foi vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em maio de 2025. O diretor Jafar Panahi foi novamente condenado por propaganda contra o Estado em dezembro de 2025.