Nosso segredo
O mundo visto por uma criança em luto
8/29/20264 min ler


Primeiro, um silêncio soturno pela morte do pai vai corroendo a alegria de todos. Tutu, pequenino, não encontra em ninguém mais da família espaço para falar o que sente ou de quem sente falta. Até a irmã Grazi vai se fechando, se separa do namorado, se isola nos fones de ouvido como fazemos todos os dias no metrô. Tutu tenta romper esse silêncio com um telefone sem fio no cano que vai parar num lugar desconhecido – onde habita algo que ainda não sabemos o quê.
A cada fruta que leva escada acima, mais pistas assomam do que parece ser uma presença ruim. Pisa forte, faz tremer a casa inteira e cospe uma infiltração densa, barrosa, respingando nos santos, nas coisas, nas pessoas.
Sobre infiltrações e infiltrados, nosso cinema tem muito a dizer. Mariana Souto olhou para as diferenças de classe nessas presenças subreptícias que vão se alastrando no tecido social e nos filmes. Em Souto, os infiltrados são aqueles transpassando lugares proibidos socialmente; em Nosso segredo, a infiltração é da morte sobre a vida, do passado sobre o presente, da insistência do luto que se materializa nos corpos e mentes dos que ficaram.
Essa insistência em acobertar a dor da morte, piorada pelas dificuldades da vida, como bem mostram os irmãos – cada qual em sua luta diária, em especial Guto, tentando ajeitar sua própria existência em um mundo que parece rejeitá-lo – prende cada vez mais os adultos na realidade crua. E prende Tutu no meio caminho que faz com que seja o único que vê e entende a presença misteriosa que tanto pisoteia. Ao final, desencadeia-se a cachoeira laranja, barro bravo que escorre e toma conta de tudo – e que traz uma dolorosa lembrança da catástrofe da barragem de Mariana, a mesma cachoeira laranja que tudo assola em O silêncio das ostras (2024): camadas e mais camadas de terra sobrepostas à história das famílias e desse país.
Na toada dessa dor toda, Grace escreve uma das cenas mais delicadas mas também mais sufocantes do filme: um encontro na cozinha entre mãe e filha que pesa sobre o quanto dói dormir sozinha, diante do vazio imenso na cama antes habitada pelo companheiro da longa vida.
A casa que abriga a história de uma família também serve para contar tudo o que dói. Afinal, vivemos a casa em que vivemos. A casa também percebe a morte, os silêncios mais fortes, os passos que não dão mais, a ausência crescendo até virar animalesca – até virar as histórias que criamos pra superar a morte, os tremores como pequenos terremotos de saudade, a batida do coração meio descompassada quando volta a memória do pai morto. E depois da avalanche e de revelados os segredos todos, a família que se reencontra repetindo em cântico a voz do pai, da lembrança da obra e do conhaque – em cena de transe tão bonita quanto triste, tão transcendental quanto necessária.
Há tantas e tantas camadas, que é preciso cavar.
Nosso Segredo tem trilhado uma trajetória gloriosa: vencedor dos prêmios Melhor Longa-Metragem Brasileiro, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte no 54º Festival de Cinema de Gramado, teve sua estreia mundial na mostra Perspectives na Berlinale 2026. É um dos filmes na disputa para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional na próxima temporada.
O longa-metragem dirigido por Grace Passô é especial. É parente próximo de filmes cuja narrativa realista e pé-no-chão começa a flertar com algo de imaginário, misterioso e assustador, como fazem O som ao redor (2012), Açúcar (2017), Los silencios (2018). Esse movimento de enxertar o horror dentro da vida cotidiana e eviscerar o quanto dói não falar das dores soterradas se renova nas mãos de Grace e nos olhos de Tutu e sua família.
Nosso segredo escreve seu título como aquelas mensagens invisíveis escritas com cera de vela que só se revelam com calor: preto sobre preto, quase um sussurrar. Desde a letra, nos fala sobre o protagonismo das personagens e histórias pretas que compõem esse universo – inclusive com a presença astronômica de Mateus Aleluia, em uma participação pequena, porém ilustre, que sinaliza para o mistério que nos encontra na faixa de pedestre.
E nessas de beleza singular, Grace parece espelhar uma das cenas mais extraordinárias do cinema brasileiro – quando a câmera persegue o rodopio de Zulmira no quintal, sob a chuva, em A falecida (1962), noutro filme completamente contaminado pela morte infiltrando na vida, ainda que por outra chave – a de um fascínio quase obsessivo, coisa mais rodrigueana impossível. Tutu e a tia, no banho de mangueira sob a mangueira, sob os cristais de sol colados na lente embaçando a vista pra infância. Alegria tão passageira, que logo se desmonta no chão, com a criança compreendendo como a vida é difícil.
Bem nesse início, Tutu vê sua mãe pela fresta da porta ouvindo o áudio que o pai deixou antes de morrer. Ali, descompromissadamente, ele lista o que precisa comprar para continuar a obra no piso superior da casa da família. E fecha a lista com conhaque: porque o velho merece.
Esse áudio é um respiro da memória que ficou do pai. Mais vivo do que o retrato antigo da cabeceira ou a foto segurando o querido disco do Zé Kéti, se ouve a voz, a cadência, o jeito do pai. E tudo isso que agora se perdeu.
Um parêntese que me veio durante o filme: na minha própria família, depois que minha avó Geni ganhou um celular, ríamos de como a vó estava viciada em mandar áudio. Todo dia, um áudio de bom dia, um assuntinho qualquer. Mas é claro: a vó Geni não sabe ler nem escrever. Mandar áudio virou o segredo dela: faz chegar na família inteira o que antes era silêncio ou saudade.



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